Água na Boca - Dicas culinárias e receitas deliciosas

Siga-nos e compartilhe

Cultura do estupro: você sabe o que é?

Tipo:


A cultura do estupro é um termo que surgiu através de alguns movimentos em defesa das mulheres. A ideia de relacionar as palavras cultura e estupro é proposital para chamar atenção de todos e assim mostrar e questionar, ao mesmo tempo, que os abusos e violências naquela sociedade, seja ela uma região ou um país, acontecem e são compreendidos pelos hábitos e costumes.

Hábitos e costumes são culturas, ou seja, fazem parte de uma essência histórica, social, moral e familiar que é herdada, aprendida e repassada, podemos inclusive chamar de crença, mesmo que esta crença não seja por motivos religiosos. Mas igualmente a crença religiosa possui uma base que impõe padrões e pensamentos no intuito de determinar conceitos e valores que geralmente são avaliados entre o certo e o errado, o bem e o mal e usam destes para agir ou justificar seus atos e pensamentos.

Por que nem todos aceitam que existe a cultura do estupro?

O que chama a atenção e, por isso, provavelmente causa uma diversidade de sentimentos e reações ao termo “cultura do estupro” é a ideia de uma cultura perversa e de dominação sobre a mulher. A cultura aqui é de desigualdade de gênero e acontece de uma forma intensa e abusiva, ao mesmo tempo, que é compreendida ou defendida por grande parte da sociedade.

O curioso é que nas falas e discursos as pessoas costumam negar a existência da desigualdade entre os gêneros, assim como negam que possam apoiar tal desigualdade. Justificam um ato abusivo ou violento como causa e responsabilidade da vítima, visto que ela escolheu não seguir os padrões determinados como certos pela ideia cultural imposta. É muito comum que essas pessoas não percebam suas atitudes e palavras como compreensão e apoio ao abuso, pois elas normalmente não estão abertas a questionar os pensamentos (delas ou do meio), apenas são conduzidas por um manual de costumes e ideias, que buscam seguir à risca para garantir que sejam pessoas boas e corretas.

Homens e mulheres fazem parte da cultura do estupro – sim! Isso inclusive ocorre com muitas mulheres. Logo, apesar de ser um movimento machista, ele não é exclusividade do homem como muitos acham (assim como o machismo também não é). As pessoas que defendem ou pertencem a essa cultura costumam utilizar falas sobre a vítima de abuso, mais ou menos nesta linha: “Ela pediu por isso, olha a roupa que usava, olha o horário que estava na rua, o jeito que dança, com quem anda… Se estivesse em casa cuidando da família e do lar, isso não aconteceria! Não deveria querer o lugar que é do homem, pois cada um tem o seu…”

Como espalhamos a cultura do estupro?

A ideia do termo em usar a palavra “cultura” nos coloca para pensar em como estes hábitos e pensamentos são aprendidos e ensinados desde muito cedo. Já venho apontando há algum tempo em meus textos que precisamos prestar atenção no formato em que nascem e são educadas nossas crianças. A desigualdade de gênero começa e é ensinada dentro de casa e também na escola, quando meninos aprendem que são mais fortes, desobedientes, descontrolados e que possuem um forte instinto e são aceitos desta forma pela sociedade. Enquanto meninas aprendem e ouvem que devem se conter, se esconder, ponderar suas roupas, falas, atitudes e devem entender que os meninos podem mais que elas.

“Meninos são assim mesmo”… Quantas vezes não ouvimos ou dizemos isso? Mas meninas devem sentar corretamente, não podem falar palavrão, não devem sair de casa, não podem sentir desejo, vontade de fazer sexo ou de beijar, pois isso automaticamente as classifica como indevidas, incorretas e merecedoras de punição. É importante frisar aqui, que a punição começa desde cedo também, em casa e na escola, quando as meninas não podem escolher a própria roupa e forma de ser, quando são impedidas de sair ou de se sentirem livres, pois causam desejos nos meninos e isso automaticamente faz delas seres errados que devem ser contidos para não gerar no menino algo indevido.

Vejam bem, não é ele que aprende a se conter e respeitar a menina e sim ela quem deve desculpar e se esconder por ser menina. Quando adultas se insistirem em não obedecer ao padrão imposto, poderão ser abusadas e violentadas e assim como quando criança o discurso é o mesmo: “Ela enquanto mulher deveria se preservar, pois os homens são assim mesmo!”

A mulher em nossa sociedade é desumanizada, pois é compreendida e avaliada dentro de conceitos de valores que excluem o SER de cada uma delas. Como assim? A mulher é entendida e classificada por ser corpo, sua roupa, seus hábitos, seus gostos, por ser boa (a que obedece padrões) ou indevida (a que merece ser punida)… A mulher é coisificada, objetificada, ou seja, vira uma coisa ou um objeto, e ai que falamos de uma cultura perversa, pois isso dá o direito aos homens de fazerem com elas o que bem entendem, com apoio inclusive de outras mulheres que se juntam a eles nas tais justificativas e que desejam punir suas coleguinhas desobedientes, como era na escola!

Raízes históricas da cultura do estupro

Essa questão é cultural sim, porque é histórica, ela acontece há muito tempo na humanidade e se engana quem acha que isso é coisa do passado. Podemos lembrar aqui fatos históricos da colonização de nosso país e época da escravidão, quando as mulheres boas eram as brancas: elas eram para casar e gerar filhos, deviam obedecer seus maridos e atender aos padrões impostos (o que não garantia que seriam bem tratadas ou amadas), ao assumir o sobrenome do marido tornavam-se pertencentes a ele, assim como os filhos seriam e deviam agradecer e respirar aliviadas por isso.

Ao mesmo tempo, haviam as escravas, que eram para ser fornicadas quando e como seu senhor desejasse, pois eram sua propriedade, mesmo que ele tivesse sua esposa para fazer sexo. Pois na verdade a questão aqui não era e nunca foi ter alguém para se relacionar, não estamos falando de desejo sexual, mas sim de um desejo de violência e dominação. As escravas nem mesmo era consideradas como mulheres ou seres com sentimentos, apenas classificadas como objeto para o prazer do homem que a comprasse… E pensando bem, apesar de menos violento (talvez), não parecia muito diferente da relação com sua esposa branca, não é mesmo?! Porém, a mulher escrava e negra e estava ali por permissão e compreensão social e cultural, numa fantasia perversa da sociedade ela pedia por isso, pois possuía um corpo voluptuoso, com curvas e gingado e na cabeça daqueles homens e mulheres elas pediam para serem abusadas!

Pensem comigo: ao lembrarmos destes fatos históricos, não parece exatamente o que ouvimos hoje em dia a respeito das meninas e mulheres quando são violentadas e abusadas? Quando ouvimos discursos acusando-as de estarem expondo seus corpos, curvas e gingados numa balada, na rua, em casa ou colégio? E que se ela quiser ser protegida ou não ser punida, deve ser obediente e mudar suas roupas, hábitos e ficar em casa?

Esse tipo de pensamento apaga e exclui a mulher como um ser. É preciso refletir urgentemente nossos hábitos e costumes, nossos pensamentos e crenças de forma que nossa cultura aprenda e ensine que uma mulher antes de ser um gênero feminino é um ser humano.

O papel de cada um nessa história

Trazemos a desigualdade fortemente em nosso aprendizado e é tão intenso e enraizado que nem mesmo percebemos que muitas vezes usamos discursos que desmerecem ou desvalorizam uma menina frente a um menino, quando justificamos que eles podem coisas diferentes porque possuem gêneros diferentes e naquele momento acreditamos que estamos protegendo nossas meninas! É precisamos atenção, pois caímos na nossa própria lábia, somos nosso próprio boicote, quando achamos que realmente estamos fazendo o bem para nossas crianças, quando acreditamos e pregamos que as meninas devem ser protegidas. Não, elas não, nossos filhos (meninos ou meninas) precisam ser protegidos e entre eles o que devem aprender é a se respeitarem. Chamo aqui, todos a pensar nessa questão, prestem atenção, pois quando (mesmo que com a melhor intenção e carinho) falamos e agimos privando nossas filhas porque são meninas, estamos colaborando com a ideia de cultura da desigualdade de gênero.

O que fazer então? Creio que não haja uma única resposta ou ato, na verdade nem mesmo será algo breve, mas entendo que se ensinarmos os meninos desde o nascimento a respeitarem as meninas, elas não precisarão se proteger deles! Assim como ensinar as meninas que possuem valor pelo ser que elas são, elas não precisarão abaixar a cabeça para sociedade ou mesmo brigar e querer provar que são melhores. Elas somente serão, assim como os meninos, seres humanos.

A cultura é algo a ser educado, a cultura que somos e acreditamos nos foi ensinada e fomos educados nela, logo parece fazer sentido pensarmos por esse viés. Uma nova educação baseada em valores do ser de cada um poderá quem sabe se tornar histórico, social, cultural. E assim nossos filhos ensinarão aos seus filhos, que ensinarão aos seus (e assim em diante) que antes de sermos gêneros ou sermos melhores ou piores que os outros, somos todos seres humanos e talvez seja isso que precise ser ensinado, inclusive nas escolas, para que se torne cultura local, nacional e global.



Ingredientes

Avalie esta receita
Avaliação média

votos, média: de 5

Compartilhar via WhatsApp

Deixe seu comentário